Lívia Amorim
No começo de 2010, George Hotz hackeou o PlayStation 3. O hack, que quebrava as barreiras do hypervisor (responsável pela virtualização e controle dos recursos compartilhados pela máquina), visava apenas utilizar todo o poder do console enquanto se rodava algum software livre. Como tal façanha possibilitaria desvendar formas de desbloqueio, a Sony, no dia 29 de março, atualizou o PlayStation 3 (versão 3.21), retirando a possibilidade de instalação de qualquer sistema operacional no modelo “fat”, único que permitia tais instalações.

O hack de GeoHot, que também foi o hacker responsável pelo primeiro desbloqueio do iPhone, foi em vão. Mas foi em vão pelo simples fato de que ele não queria desbloquear o console, e sim estudá-lo. Todo o trabalho de Hotz foi focado em utilizar os sete coprocessadores do PlayStation 3, que era algo limitado quando se utilizava qualquer distribuição Linux no console, quebrando apenas a camada que dava essa limitação.     Ao falar em hackear um console, estamos comprando uma briga imensa com a empresa responsável por ele, já que, na semana seguinte, a mesma correrá atrás de uma maneira de resolver as falhas de segurança, assim como aconteceu com o Xbox 360, Wii, PSP e, atualmente, o PlayStation 3. Muitas vezes as empresas acabam tendo decisões mais radicais, optando por banir o console, mas isso não quer dizer que as próprias empresas não vejam seus próprios erros. O Xbox 360, por exemplo, teve duas de suas atualizações completamente abertas por vários hackers, e a Microsoft tenta mantê-lo seguro como pode, mesmo sendo tarde. Por mais que tentem encobrir a falha de segurança, o hacker já saberá como o console funciona, e isso faz com que seja fácil abrir espaço novamente, não importa quantas atualizações façam. No caso do Wii, o único fator que acabou contribuindo para seu hackeamento foi o seu controle, já que a ideia principal era fazer um computador reconhecer o Wii Remote. Em outras palavras, jogos piratas foram um bônus.

Hackear não é desbloquear, já que cada jogo tem uma chave criptografada armazenada em uma área do disco, chamado ROM Mark. O firmware da unidade lê essa chave e transmite pro hypervisor, para que ele descriptografe o jogo durante o carregamento. Ou seja, hackear o hypervisor não é o único passo necessário para executar jogos pirateados, já que ele precisaria ser subvertido, para revelar esta chave para cada jogo. Outra forma seria comprometer o driver do firmware do Blu-Ray para descobrir o código de descriptografação, e assim, descobrindo como decifrar cada jogo. Claro que também há o risco do fabricante usar uma proteção anticópias, como o SecuROM, mas seria detalhe.

Usando essa chave criptográfica, nesta quinta-feira (30), o grupo "fail0verflow" resolveu mostrar como se desbloquear um PlayStation 3, alegando retornar ao usuário o poder de rodar os tais sistemas operacionais, utilidade bloqueada pela Sony, seja lá qual fosse a atualização do console, mas, como também foi dito, isso possibilitaria a chegada de jogos piratas, que é a verdadeira intenção do grupo.

Não é errado hackear, desde que haja ética, a moral generalizada e bem trabalhada, uma denominação da forma correta de se viver em sociedade, estabelecida pela mesma. Estudar profundamente certas máquinas garante um conhecimento inigualável e extremamente autodidático, quase um quebra-cabeça de mil e quinhentas peças. Mas é claro, você pode estudar e programar com direito à otimização pelos processadores, ou, no pior caso, usar sua sabedoria para piratear e ganhar dinheiro ilegalmente.

O grupo de hackers fará uma palestra durante a 27ª edição do evento C3 (Chaos Communication Conference), mas uma parte já está disponível no Youtube.

A Sony não se pronunciou oficialmente sobre o assunto.

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